segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O CORPO onde a vida e a dança se encontram. E o mesmo sempre inversamente...

Legenda: foto de Alain Monot, do espectáculo «Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza» de Vera Mantero

A dança é um estar junto

Seis intérpretes estão sentados, em fila, em cadeiras, na boca de cena, frente para o público. Durante cerca de uma hora falam, gesticulam, sem sair do lugar. As vozes derivam para variações melodiosas, que transformam o corpo das palavras em cânticos mais abstractos ou sons de animais. Trocam de cadeira algumas vezes, falam directamente para o espectador, são minuciosos no rendilhar da expressividade dos dedos, do olhar, da posição do corpo, dos braços… Não há dança? – queixaram-se alguns… É a nova peça de Vera Mantero. O nome foi buscá-lo a um poema de Herberto Helder, «Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza». A dança, hoje, é precisamente aquela peça, quando a dança é arte.
A dança é o exercício da imaginação poética do corpo da palavra, do corpo da voz, do corpo das luzes, do corpo em palco, do corpo na plateia… É de todas essas possibilidades de corpos, que celebram um momento de estar junto, que se faz a dança hoje. O movimento que desenha pode ser concreto, assumindo a sua expressão mais convencional, estética e contemplativa, mas pode ser sugestivo, poético ou filosófico. Este entendimento de movimento é, assim, muito mais amplo, rico e interessante.
A dança é poesia em cena, quando existe sem os constrangimentos dos formalismos académicos, nessa condição libertadora da experiência do ser, com toda a sua complexidade, angústia e ambiguidade.
A dança será sempre um corpo num tempo e num espaço. Mas podemos, e devemos, sempre discutir o que é esse corpo, esse tempo e esse espaço. E os seis intérpretes de Vera Mantero, com a criadora incluída, dançaram maravilhosamente.
Dançaram maravilhosamente nessa múltipla dimensão da arte: empreenderam o gesto afectivo, que se dá a conhecer sem reservas, numa proximidade comovedora e generosa; fizeram-no tocando a delicada poesia do existir, por entre essa respiração das sombras, dos pormenores, quase próximo do invisível; e ainda o fizeram com o virtuosismo de quem domina as técnicas do movimento e da metamorfose (porque o corpo é um corpo total, desde o pós-modernismo que sabemos disso, feito do sangue que corre nas veias, das respirações quase imperceptíveis, dos suspiros vulneráveis, dos desejos).
A dança é um estar junto.
A dança é um estar junto, num lugar de resistência à vida formatada, em que o autor da poesia, e do movimento, tanto é o criador e intérprete como o espectador.
A dança é um estar junto que propõe uma proximidade para a qual nem sempre estamos preparados.
Está na hora de reconhecer num sussurro ou num olhar o movimento perpétuo da poesia da condição humana. Isto é a dança.
Claudia Galhós
(Texto publicado por ocasião do Dia Mundial da Dança, em 2007, no suplemento do El Periodico, de Barcelona, dedicado ao tema, em que pessoas de áreas muito diferentes respondiam à questão: o que é a dança?)

2 comentários:

Ines disse...

Meu actual livro de cabeceira. Ainda vou na página 106, mas já estou a gostar. Também gosto de cerejas!

O Tempo das Cerejas disse...

Que bom! começo a ter reacções de pessoas que não conheço e não me conhecem. É um diálogo sempre interessante. Estou muito curiosa. Vai-me mantendo a par. Se quiseres, claro.